O aumento da tarifa de ônibus, metrô e trens urbanos em SP é mesmo necessário?

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Manter congeladas as tarifas, além de medida de forte impacto social em tempos de crise, seria possível sem ônus para os cofres públicos com a adoção de melhorias de gestão.

O aumento das passagens de ônibus, metrô e trens urbanos é um erro dos governos municipais e estaduais que tende a anular parte do ganho de usuários sentido pelos transportes públicos nos últimos anos.

A alta anunciada em São Paulo, de R$ 3,50 para R$ 3,80 (8,57%), deve afastar dos coletivos muitos usuários. As pessoas afetadas pela crise (desempregados ou que sentiram redução na renda familiar), os que estão com a pulga atrás da orelha e os de renda mais baixa em geral vão diminuir o uso do transporte público.

Na capital, o prefeito Fernando Haddad vai pagar o maior ônus político, por ser candidato à reeleição. Já o governador Geraldo Alckmin tem dois anos de mandato pela frente para diluir o efeito negativo.

Um dos estudos mais citados sobre influência do preço da passagem no uso de transportes públicos, “Efeitos da Variação da Tarifa e da Renda da População sobre a Demanda de Transporte Público Coletivo Urbano no Brasil” (IPEA, 2011), mostra que aumentos tendem a resultar em quedas proporcionais (os 8% resultariam em igual redução de passageiros ou até 480 mil pessoas).

O trabalho indica também que nos anos de crescimento de renda (2003-2011), o impacto da passagem foi absorvido sem queda de usuários. Mas esse não é o cenário para 2016.

A justificativa da Prefeitura para o aumento dos ônibus é de que cresceu muito o subsídio ao sistema em decorrência de gratuidades oferecidas, chegando a cerca de R$ 1 bilhão em 2015. Hoje, só cerca de metade dos usuários paga integralmente as passagens.

Idosos, deficientes e estudantes têm gratuidade total ou parcial. Só a gestão Haddad, desde 2014, deu tarifa grátis ou descontos para 800 mil usuários ou 14% dos 6 milhões de passageiros diários do sistema.

A Prefeitura poderia evitar o aumento reduzindo custos indefensáveis no sistema do Bilhete Único, como as fraudes, entre as quais a principal é o uso falso de bilhetes gratuitos (de idosos ou estudantes, por exemplo).

O segundo custo absurdo é a manutenção dos cobradores, hoje desnecessários: eles arrecadam pouco e custam para a Prefeitura o correspondente a todo o subsídio do ano passado.

A competência de arcar com reciclagem e recolocação para uma profissão em extinção é do Ministério do Trabalho, não do contribuinte municipal ou usuário de ônibus.

Por fim, a Prefeitura gasta dinheiro dos paulistanos para dar tarifa subsidiada a moradores de outras cidades da Grande São Paulo que vêm à Capital e usam o Bilhete Único.

É preciso negociar com as outras municipalidades e o governo do Estado formas de ressarcimento ou exigir atestado de residência no município ao emitir um Bilhete Único paulistano.

Depois de dedicar três anos do mandato a medidas que incentivam o uso de formas de mobilidade alternativas ao automóvel, o aumento de tarifas inverte o sinal, poderá devolver à calçada (pobres) ou aos carros (mais endinheirados) milhares de usuários do transporte público.

Em vez de aumentar as tarifas como fazem todos os prefeitos, Haddad teria o reconhecimento da cidade para um gesto ousado.

Fonte: UOL

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