Especialistas apontam desgaste de Haddad e dizem que ‘ele não aprendeu com 2013’

Haddad-avaliação

No último dia 9 de janeiro, a passagem do transporte público em São Paulo subiu de R$ 3,50 para R$ 3,80. Não foram poucas as justificativas apresentadas pelo prefeito Fernando Haddad (PT) para defender o reajuste: foi um reajuste de 8,57%, abaixo da inflação de 10,49%; não afeta o Bilhete Único Mensal; e ao contrário do que se possa pensar, o lucro das empresas de transporte caiu 44,47% em 2015.

Passadas pouco mais de duas semanas do início do ano, as explicações não foram o suficiente para impedir que o Movimento Passe Livre (MPL) convocasse manifestações na capital paulista. A pauta é a já conhecida: revogação do aumento da tarifa e avanço do debate que possa fazer, um dia, a cidade chegar à gratuidade do sistema (o que, segundo Haddad, custaria R$ 8 bilhões à capital). Como em 2013. E, três anos depois, tal como nas Jornadas de Junho, a violência policial acentua o desgaste.

A diferença central é que 2016 é um ano de eleições municipais. Oficialmente, Haddad se nega a falar em reeleição – o discurso do prefeito é não abordar o assunto até abril. Todavia, o impasse que vai se estabelecendo a cada nova manifestação do MPL na cidade, ainda que não pareça ter o mesmo impacto até o momento do que se viu há três anos, só prejudica o petista, de acordo com especialistas ouvidos pelo HuffPost Brasil.

“A decisão do reajuste neste ano mostra que o prefeito é mais técnico do que político. Em 2013 o aumento foi de uma inabilidade gigantesca quando houve o aumento de R$ 3,00 para R$ 3,20. Parece que ele não soube aprender”, analisa o doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Rafael Araújo. “Como em 2013, por mais que exista argumentação técnica, de orçamento, para o reajuste, ele deveria buscar alternativas”, completa.

Há três anos, após a forte repressão policial e a pressão da opinião pública, o reajuste da tarifa acabou revogado. Antes mesmo do aumento da tarifa do transporte, as apostas na reeleição de Haddad só eram otimistas nos círculos próximos ao prefeito. Dados de uma pesquisa do Ibope, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo no último dia 4, mostram que só um terço dos brasileiros (22%) pretende votar no prefeito da cidade onde mora, contra 40% que afirmam preferir um nome de oposição. Em cidades com gestão do PT, 22% votariam pela manutenção, ante 33% que preferem alguém de outro partido.

“É um suicídio eleitoral. Quem está na rua forma a base de eleitores ativos do Haddad, faria campanha para ele, e agora está protestando. Metade da própria gestão do prefeito, principalmente do segundo escalão para baixo, é contra o aumento. É uma medida impopular, desnecessária. O prefeito viu o maior levante da República [em 2013] vindo contra ele após uma medida que gerou muita antipatia da população”, pondera o filósofo e professor de Gestão de Políticas Públicas da USP Pablo Ortellado.

Para Pablo Ortellado, outro ponto importante é a organização horizontal dos movimentos sociais. Se o que o MPL deu início há três anos parecia algo novo, agora já se tornou uma rotina, envolvendo outras categorias e demandas. Um exemplo que o filósofo menciona é a recente vitória do movimento de estudantes secundaristas da rede estadual de ensino de SP, que conseguiram que Alckmin recuasse do plano de reorganização escolar.

“Hoje temos um MPL mais organizado, com apoio dos secundaristas que derrotaram o governo estadual. Acho que a conjuntura favorece a demanda dos manifestantes. Além disso, é preciso dizer que essa história de aumento abaixo da inflação envolve um percentual muito pequeno. Se formos ver, eles recolocaram os R$ 0,20 de 2013 na tarifa. Corrigindo, em valores atualizados, daria os R$ 0,50 de 2014, mais os R$ 0,30 de agora.”

Fonte: BrasilPost