Salvem nossas Crianças, liberem o corredor de ônibus aos veículos escolares

Enquanto no Brasil se valoriza mais o voto do que as políticas públicas sustentáveis, nossas crianças continuam expostas diariamente à poluição e aos transtornos causados pelo trânsito das grandes cidades. Poucas são as cidades brasileiras onde é permitido aos veículos escolares trafegar nos corredores exclusivos de ônibus e táxis.

Crianças não votam, vários adultos em um ônibus coletivo votam, um taxista e um ou mais passageiros adultos votam. Pais de crianças e seus familiares votam, mas não reclamam e tudo fica por isso mesmo.

Pesquisa publicada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) demonstra que condições ambientais prejudiciais à saúde são responsáveis pela morte de 12,6 milhões de pessoas por ano, um número que equivale a quase um quarto de todas as mortes registradas anualmente no mundo.

De acordo com a agência da ONU, pesquisas revelaram que a poluição do ar, das águas, do solo, a exposição a substâncias químicas, a radiação ultravioleta e as mudanças climáticas contribuem para o desenvolvimento de mais de 100 doenças.

Em seu levantamento, a OMS aponta que riscos associados ao meio ambiente provocam um maior número de vítimas em determinadas faixas etárias: crianças com menos de cinco anos que são vítimas, principalmente, de infecções respiratórias e diarreias; e adultos mais velhos, com 50 a 75 anos, mais afetadas por doenças não transmissíveis, como derrames, ataques cardíacos, cânceres e síndromes respiratórias crônicas.

O gerenciamento adequado da natureza poderia evitar 1,7 milhão de mortes de crianças e 4,9 milhões de óbitos entre os adultos na faixa de idade indicada. Enquanto isso, o governo brasileiro discute cadeirinhas nos veículos escolares para alavancar a indústria automobilística e recuperar a economia.

Os problemas de saúde não transmissíveis, causadas por condições ambientais pouco saudáveis, representam quase dois terços do total de mortes (8,2 milhões). Segundo dados coletados pela Organização, as doenças cardiovasculares são as principais causas de óbitos relacionados ao meio ambiente: derrames matam 2,5 milhões de indivíduos por ano e doenças arteriais coronarianas, 2,3 milhões.

Já os diferentes tipos de câncer atingem, de forma fatal, 1,7 milhão de pessoas anualmente. Esse número é o mesmo de vítimas de acidentes de trânsito em estradas, categorizados pela OMS como “danos não intencionais” associados ao ambiente em que se vive.

Ao mesmo tempo, as mortes por doenças infecciosas, como diarreia e malária, associadas frequentemente à falta de saneamento e água potável, registraram uma queda nos últimos dez anos, em função do aumento do acesso a serviços básicos e a imunização, remédios e métodos preventivos.

A OMS sugeriu medidas como o planejamento adequado de centros urbanos e do trânsito como capazes de reduzir a poluição do ar a que as pessoas estão submetidas rotineiramente, além de promover a segurança física das populações. A questão aqui então não é sentar ou não na cadeirinha, mas quanto tempo se permanece sentado nela, exposto à poluição atmosférica.

Para a especialista em trânsito da Perkons, Idaura Lobo Dias, “É indiscutível a importância de se priorizar opções alternativas de transporte. Aprimorar o transporte coletivo e incentivar o uso de veículos elétricos, por exemplo, é essencial para frear também as mortes indiretas no trânsito”, pontua.

E enquanto não se chega à fabricação em larga escala de veículos elétricos, uma medidas simples e prática que resolve boa parte do problema das crianças expostas à poluição atmosférica das grandes cidades, não seria a liberação de um trânsito mais fluído aos veículos escolares, veículos nos quais algumas delas estão expostas quase pela metade do tempo em que estão em sala de aula, considerando-se o percurso de ida e volta?

O chefe do Departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Dirceu Alves Junior, compartilha da visão de que pesquisas reforçam a máxima de que o trânsito não mata apenas por acidentes. “A melhoria do transporte coletivo faria a população abandonar aquilo que deveria ser um veículo de passeio, mas é usado diariamente para trabalho”, exemplifica.

Neste panorama, as 15 principais regiões metropolitanas brasileiras apresentaram, entre 2001 e 2012, crescimento de 90,2% na frota de automóveis. E a saúde sofre impactos indiretos constantes por qualquer que seja o tamanho da frota veicular. Lançada em 2015, resolução da Organização Mundial da Saúde (OMS) associa a poluição atmosférica à morte de mais de oito milhões de pessoas no mundo anualmente.

Com o intuito de fazer uma avaliação mais apurada dos danos dessa ordem, o Instituto Saúde e Sustentabilidade, ligado à Universidade de São Paulo (USP) estima que, em São Paulo, a deterioração do ar ocasiona 4 mil mortes prematuras ao ano apenas na capital, além de reduzir a expectativa de vida em 1,5 anos.

A pesquisa também estimula uma reflexão decisiva em âmbito mundial: se não forem tomadas providências, a poluição atmosférica pode se tornar a principal causa ambiental de mortalidade prematura em 2050. “O aumento no número de veículos tem trazido muitos transtornos, pois a quantidade de vias é a mesma de 20, 30 anos atrás. Algumas dessas consequências, que envolvem a redução da imunidade de maneira geral, são os quadros de conjuntivite química, dermatite pela obstrução de glândulas, enfisema pulmonar e problemas respiratórios, como sinusite e bronquite, agravados pela poluição”, enumera Dirceu. Outra decorrência destacada pelo especialista advém da poluição sonora. “Já é comprovado que 22% dos paulistanos têm problemas auditivos por conta dos ruídos do trânsito”, ressalta.

Além dos inúmeros malefícios à saúde, os congestionamentos quilométricos comprometem o meio ambiente. Conforme o médico, os vapores lançados ao meio ambiente pela queima de combustível aumentam a temperatura nas zonas de maior concentração de veículos. “Nesses pontos, é possível aferir até 4°C acima do que no restante da cidade. Os gases liberados nessa queima também barram a dissipação do ar, provocando o efeito estufa, problema gravíssimo para o planeta”, elucida.

De acordo com o químico e consultor de mobilidade urbana, Antônio de Veiga, “Uma criança dentro de um transporte escolar movido a diesel respira quatro vezes mais desses gases tóxicos do que ao caminhar pelas ruas”, compara. Ele adverte ainda que a fuligem já é associada a 8% das mortes de idosos. “Em grávidas, a poluição veicular também compromete o desenvolvimento neurológico dos fetos, com possibilidade de gerar mutações genéticas”, acrescenta.

Para o químico, a solução para conter esses índices deve vir da combinação de três fatores determinantes: inspeção veicular, melhoria da qualidade dos combustíveis, e controle regional dos centros urbanos quanto à emissão de poluentes.

Um estudo feito na Universidade de Cincinnati, no estado americano de Ohio, e publicado no Environmental Health Perspectives, uma publicação do Instituto Nacional de Saúde (NIH, sigla em inglês) dos Estados Unidos concluiu que a exposição de crianças muito pequenas à poluição do ar provocada pelo tráfego de veículos pode estar relacionada a um maior risco de elas apresentarem hiperatividade durante a infância. “Até onde sabemos, esse é o maior trabalho sobre exposição precoce à poluição e seus efeitos neurocomportamentais em crianças em idade escolar”, diz Nocholas Newman, que coordenou a pesquisa.

Os pesquisadores utilizaram dados do Estudo de Alergia Infantil e Poluição Atmosférica de Cincinnati, um levantamento epidemiológico que analisou os efeitos da poluição sobre o risco de alergia infantil. Eles acompanharam 576 crianças desde o nascimento até elas completarem sete anos, idade em que passaram por uma avaliação comportamental.

Os resultados mostraram que as crianças expostas a maior quantidade de poluição atmosférica provocada pelo trânsito nos primeiros sete anos de vida foram aquelas que tiveram um maior risco de apresentar uma ‘situação de risco’ para hiperatividade. Ou seja, precisam ser monitoradas com frequência para que não desenvolvam sintomas do transtorno. “Vários mecanismos biológicos podem explicar essa relação entre doença e poluição, entre eles o estreitamento dos vasos sanguíneos e a toxidade presente no córtex pré-frontal do cérebro (área relacionada ao pensamento, raciocínio e planejamento), problemas provocados por poluentes”, diz Newman.

Motivos e justificativas para liberação de corredores exclusivos de ônibus e táxis a veículos escolares existem de sobra, o que falta mesmo é vontade política, e vontade política não reside apenas nos políticos, mas especialmente na população.

Restam apenas meus votos de mudança, embora voto mesmo eu tenha apenas um, e um só não muda praticamente nada! Então, que meus votos sejam também os seus votos, e que sejam nossos realmente, não deles, políticos que demandam apenas aquilo que mais lhes interessa, e não ao que interessa às nossas crianças.

Por Antonio Félix
Com informações de Revista Veja