Dopping só no bolso! Em um ano, ‘antidoping do cabelo’ reprova só 1,3% dos motoristas e movimenta R$ 300 milhões

dopping_RSOs primeiros resultados do “antidoping do cabelo” colocam em xeque o estereótipo de que a maioria dos caminhoneiros se droga. Entre março de 2016, quando a lei passou a valer, e janeiro deste ano, foram realizados quase 979 mil exames, segundo dados do Denatran. Apenas 1,3% do total deu positivo para o uso de drogas como cocaína, maconha e rebite.

O percentual é inferior ao único levantamento nacional, feito em 2010 pela Secretaria Nacional de Drogas, com mais de 3 mil caminhoneiros em 27 capitais, a partir da saliva dos motoristas: 4,6% deles consumiram alguma droga, segundo a pesquisa.

O exame do cabelo identifica o uso de drogas em até 90 dias anteriores. Se reprovado, o motorista sofre uma suspensão de três meses e tem que fazer outro antidoping. O exame custa entre R$ 240 e R$ 300 reais e é exigido a cada renovação de CNH, mudança de categoria e sempre que o motorista é contratado ou demitido de uma empresa.

Para Dirceu Rodrigues Alves Junior, da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego) a medida é abusiva e ineficaz porque não fiscaliza o consumo no ato da direção.

“Cerca de 75% dos caminhoneiros são autônomos. E se eles tem um ‘falso positivo’ ficarão 90 dias afastados da atividade. Sem ganhos, sem a CNH. Não tem como pagar o aluguel do veículo, ou a mensalidade da compra do veículo. Não tem como dar o aporte à família. Não vemos o porquê dele existir. Achamos que é uma agressão. Intimida a classe, descrimina os indivíduos e traz prejuízo econômico porque eles têm que pagar o exame.”

Entidades como a Abramet, o Ministério da Saúde, Conselho Federal de Medicina e a Sociedade Brasileira de Toxicologia foram contra a medida.

Os defensores foram três grandes laboratórios americanos que controlavam a tecnologia do exame: o Psychemedics, o Labet e o Omega. De um ano pra cá, apenas outros cinco laboratórios nacionais foram credenciados pelo Denatran. São oito empresas que controlam um mercado que movimenta mais de 300 milhões de reais por ano.

Eduardo Biavati é mestre em sociologia pela UnB, especializado em educação para o trânsito, e defende o antidoping.

“É um fator adicional, num conjunto de outros fatores, de reforço da fiscalização, que envolve a velocidade, envolve também penalidades mais rigorsas. É uma peça a mais num quebra cabeça complexo de mudança de patamar da segurança viária no Brasil. Criou-se uma cláusula de barreira da qual é muito difícil de escapar.”

Ainda não é possível dizer se a medida reduziu os acidentes nas estradas. Entre março e dezembro de 2016, após a obrigatoriedade do exame, houve queda de 26% nos acidentes com caminhão na comparação com o mesmo período 2015. Mas em janeiro e fevereiro, quando o exame ainda não era exigido, a queda foi maior, de 36%.

Em 2016, 10.167 motoristas rebaixaram a CNH das categorias C, D e E para A e B, número 23% maior do que em 2015.

Na Câmara dos Deputados, tramitam projetos que tornam obrigatório o exame também para motoristas comuns.

Com informações da CBN