Depoimento de uma mãe sobre os dilemas da decisão de usar uma van escolar para levar os filhos à escola

O artigo intitula-se “A perua escolar, a terceirização dos filhos e a culpa materna” e encontra-se publicado no site ‘Bagagem de Mãe’, pela mãe e escritora Loreta Berezutchi, em fevereiro de 2016, e exemplifica bem em sua narrativa o que acontece na cabeça de uma mãe quando resolve deixar de usar o veículo próprio para contratar uma van escolar para levar os filhos à escola.

A incerteza, as dúvidas e a angústia dessa decisão, com suas consequentes perdas e ganhos, são expostas de forma bem explicativa neste artigo, que transcrevemos abaixo:

“A PERUA ESCOLAR, A TERCEIRIZAÇÃO DOS FILHOS E A CULPA MATERNA

Desde o ano passado estou ensaiando para colocar as crianças na perua escolar, uma série de fatores, que vão desde os horários de trabalho até o rodízio de carros em SP, me fizeram cogitar esta opção mas, toda vez que eu pensava em perua escolar, uma coisa se agitava aqui na minha barriga, e não, não era lombriga, era culpa!

Eu pensava, pensava, analisava, pesquisava e no fim, arrumava sempre uma desculpa para continuar a levar as crianças eu mesma, ainda que isso significasse uma correria diária, um estresse, uma trabalheira, uma choradeira para fazê-los comer, uma correria pra fazer lição de casa, uma correria para organizar meu dia e depois, parar tudo no meio para sair correndo e chegar a tempo de buscá-los na escola…

Como sempre, antes de decidir eu tentei ser o mais racional possível e por isso, fiz uma lista das minhas dúvidas, porques e quereres e saí investigando cada um dos itens listados. Eu sei, pareço maluca, talvez eu seja, mas sempre que fico nesta corda bamba da dúvida e do medo, tento ser racional e encontrar uma saída!

A primeira coisa que me deixava muito aflita era a questão da segurança, pensar nos meus pequenos pegando “carona” em um carro com “desconhecidos”, cheio de crianças, sem que eu pudesse saber os caminhos que este carro vai fazer, como é que este motorista dirige etc. me dava calafrios então, parti para a pesquisa de campo.

Fiz um post AQUI onde eu conto tudo o que eu descobri sobre como analisar a segurança da perua escolar, itens que você pode ver e tocar (como o cinto de segurança, o estado do veículo, etc) até coisas que você não pode tocar (como observar como é o cuidado do motorista com as crianças, como funciona a entrada e saída dos alunos, se é seguro etc).

Ok, esta etapa foi concluída com sucesso (é claro que eu ainda tinha aquelas ressalvas de mãe, mas tudo o que pude analisar e assegurar, eu fiz, e isto me deixou mais tranquila) ainda faltavam outros quesitos como: será que eu preciso mesmo da perua? O que ela vai facilitar na minha vida? E por último, a questão mais delicada de todas: será que eu quero perder estes momentos de levar e buscar as crianças, que são os momentos em que nos divertimos no carro, cantamos, contamos sobre o dia etc?

Assim que eu encontrei uma perua que eu confiava e que poderia me atender, bati todos os horários com os prestadores de serviço e percebi que, ter a perua escolar facilitaria e muito! Na prática, eu ganharia quase 4h a mais de trabalho, já que perdia quase isso para levar e buscar as crianças e, ganhando estas 4h durante o dia, eu não precisaria sacrificar 4h da noite, que é o momento em que eu deveria estar com os meus filhos. Seria ótimo!

Com isto resolvido, coloquei na balança o peso que tinha pra mim os momentos que passávamos juntos dentro do carro e, depois de remoer, remoer e remoer, cheguei a conclusão de que este era um exercício sem solução! Qualquer tempo que eu passe com os meus filhos tem um valor intangível e logo, nada poderia ter peso maior, percebi que estava olhando a questão pelo ângulo errado!

Ok, eu gostava de passar tempo com os meus filhos, mesmo este tempo no trânsito mas, será que eu não poderia substituir este tempo por um tempo melhor, de maior qualidade?

Porque na verdade, o tempo que passávamos no carro era, muitas vezes, estressante, cheio de brigas, buzinas, fumaça e depois, quando chegávamos em casa, todos cansados, comer juntos e ter pelo menos 1h antes de dormir para finalmente fazer alguma coisa juntos, de verdade era mais difícil e menos prazeroso do que poderia ser se eu não passasse tanto estresse no trânsito!

Pode ser que eu tenha chegado a esta conclusão simplesmente porque precisava dela e assim, procurei uma resposta que fosse mais convincente pra mim mesma mas, de toda forma, ainda não posso dizer que isto está super resolvido no meu coração, foi apenas o resultado racional que eu encontrei e decidi aceitar.

As aulas recomeçariam depois do carnaval, conversei com o Pedro e a Cacá sobre esta grande mudança na rotina, Pedro ficou animado, Cacá choramingou. Expliquei meus porquês e fiz um monte de recomendações: só entre na perua da tia que você conhece, só entre se a sua irmã/irmão estiver lá também, coloquem os cintos de segurança, nada de ficar em pé na perua, nada de brincadeira boba na perua, respeitem a tia, deem as mãos para atravessar (se for o caso) e qualquer coisa de diferente que acontecer, me contem imediatamente!

No primeiro dia, meu coração estava acelerado, eu estava me fazendo de forte para aguentar os olhos marejados da Cacá, a perua chegou. A tia saiu de lá, me cumprimentou, cumprimentou as crianças, me explicou como funcionaria o roteiro dela, onde ela passaria antes de deixá-los lá e cá, eles entraram no carro, colocaram os cintos, reconheceram alguns amigos, acenaram pra mim felizes e foram para a aula.

Eu subi nervosa, estava nervosa imaginando se eles chegariam bem, se estava tudo certo, se eles entrariam direitinho na escola, se não ficariam por lá me esperando, se seriam esquecidos lá dentro, se o motorista dirigiria direito, se eles chorariam ou precisariam de mim… Fiquei perdida!

Quando percebi que havia ganhado aquela hora para começar o trabalho mais cedo, também percebi que isto significava que eu poderia terminar o trabalho mais cedo e isto me deu uma certa alegria esquisita, fiquei em estado de alerta, sem saber direito se era certo estar feliz…

Dei mais um tempo, liguei na escola, o pessoal da secretária foi checar se os 2 estavam em sala de aula, alguns minutos de agonia, eles estavam, estava tudo certo. Resolvi focar no trabalho!

O fato de não ter saído correndo, pegado trânsito, perdido tempo fez com que o meu dia rendesse muito, quando se aproximou o horário em que eles chegariam, eu já estava terminando tudo e assim, pude finalmente desligar o computador e ficar só com eles, foi incrível!

Esta rotina se repetiu durante toda esta primeira semana e ao final dela eu descobri um outro sentimento de culpa, não mais por ter colocado eles na perua e perder aqueles momentos nossos, parados no trânsito. Desta vez, a culpa era por estar feliz por ter feito esta terceirização dos meus filhos!

Tinha alguma coisa errada! Eu não poderia estar feliz terceirizando as tarefas com eles, eles são meus filhos, eu deveria fazer tudo por eles e com eles, mesmo que isto significasse um sacrifício enorme de minha parte! O que estava acontecendo?

A crise se tornou profunda quando outras mães me disseram que jamais fariam “isso com os filhos”, que esta “terceirização era um perigo” e eu fui me sentindo a pior mãe do mundo. O medo começou a crescer de novo, desta vez ele estava misturado com culpa e eu senti uma angústia enorme por perceber que, de alguma forma, eu estava fugindo do meu “plano original”.

Eu não era mais aquela mãe que eu havia me proposto a ser, aquela mãe “com apego”, que faz tudo, que está sempre junto, que sacrifica a si mesma para estar com os filhos, mas o pior não era isso, o pior era que eu não era mais aquela mãe e eu estava feliz com isso!

Pensem numa piração?!

De novo, coloquei minha cabeça para pensar e acalmar meu coração, coloquei na minha “listinha mental” os porquês desta mudança, em mim, na minha rotina mas, principalmente, nas crianças. Em um final de semana bem atento, em que mandei o medo passear e respirei fundo para poder enxergar tudo o que estava acontecendo, percebi o óbvio: eles cresceram!

Eles cresceram e suas demandas e necessidades mudaram, eles não precisam mais de mim o tempo todo “colada”, eu não preciso mais dar banho, dar comida, vestir, dormir junto… Mas eu preciso estar presente de outra maneira, uma maneira bem mais difícil e que exige muito mais, eu preciso estar emocionalmente presente!

Não é que antes eu não estivesse, sempre estive, mas agora Pedro e Cacá estão entrando naquela fase em que, as coisas do coração, da alma, do que diz respeito a ser e estar são muito mais importantes do que se dormiram a quantidade suficiente, se tomaram banho na temperatura certa, se a comida tinha todas as proteínas e vitaminas e blá blá blá…

Não, estas coisas todas não perderam a importância, só trocaram de posição na lista de prioridades das vidinhas deles! Eles precisam de mim, de mim por dentro, de trocar idéias, de fazer perguntas, de serem escutados, de tomarem broncas (quando preciso), de encontrarem uma direção, de aceitação, de orientação, de risadas, de choros…

Todas estas questões exigem tanto ou mais do que as anteriores exigiam quer dizer, passar madrugadas insones porque eles não dormiam e ter que funcionar no dia seguinte era muito difícil sim mas, eram funções quase inteiramente biológicas, que o nosso organismo simplesmente se adapta. Agora, tenta estar com a mente despreocupada, livre de culpas, demandas, trabalho etc para ter um papo legal com o seu filho? Tenta estar emocionalmente disponível depois de um dia inteiro de estresse, para conseguir ouvir as queixas dele, colocar-se no lugar dele e ajudá-lo a encontrar a melhor solução de forma emocionalmente inteligente, é muito difícil!

E foi isto que eu entendi, foi isto tudo que eu percebi em um final de semana que começou com eu me sentindo a pior mãe do mundo, e terminou com um renascer, um desabrochar de consciência. Tornar a minha vida (e a deles) mais prática, menos estressante e o nosso tempo juntos, de qualidade de verdade, é um desafio que pode ser facilitado sim!

Se encontrar soluções que terceirizem funções de rotina, como levar e buscar meus filhos na escola, significa ter mais tempo de verdade para eles quando estivermos juntos, eu topo, sem culpa! Terceirizar estas coisas não deveria ser o bicho papão da maternidade, o verdadeiro bicho papão é encontrar o equilíbrio!

É saber que as decisões que você toma hoje são decisões que beneficiam a todos e não apenas a você, é ter certeza que as suas atitudes te transformam em uma mãe mais feliz sem causar a infelicidade dos seus filhos aliás, existe mãe feliz com filhos infelizes?

Há uma linha tênue que separa o que é egoísmo e o que é otimizar a vida, simplificar, tornar prática! Neste momento, eu acredito sinceramente que esta foi a melhor decisão que tomei para mim e a minha família, com ela, vieram outras decisões e lições que nos fizeram crescer e enxergar que um novo ciclo se iniciou por aqui.

Já que não preciso mais levá-los e buscá-los, pude vender 1 dos nossos carros e isto significa economia de dinheiro e saúde já que, menos carros nas ruas é igual a menos poluição o que é bom para todo mundo e, além disso, sem o carro, voltei a caminhar pelo meu bairro, fazer coisas a pé e isto também é bom pra mim, pra minha saúde e pra saúde financeira do meu bairro.

Passei a andar mais de táxi, o que também é bom para a economia e otimiza o meu tempo no trânsito já que, como não sou eu quem estou dirigindo, posso checar e responder emails, ligações, finalizar coisas pelo computador e sem o risco de fazer isso dirigindo!

As crianças estão bem, Pedro teve alguns problemas na primeira semana de perua, ele ficou aborrecido porque seus amigos estão indo na outra perua e assim, só sobraram os amigos da Cacá na perua deles. Primeiro, ele me pediu pra trocar de perua, depois arrumou briga com a irmã e uma coleguinha mas por fim, percebeu que nada disso adiantaria e que na verdade, era hora de ele aprender a conviver com todas as pessoas, de todas as idades, nem tudo nesta vida poderá ser do jeito que ele quer, e é bom que ele já aprenda a resolver estes conflitos de convivência!

Pode ser que eu simplesmente tenha convencido a mim mesma de que esta foi a melhor solução, pode ser que eu esteja procurando motivos para desculpar a mim mesma por ter esta necessidade de otimizar, simplificar e terceirizar mas, quer saber?

Por mais que as palavras sejam ruins, eu resolvi não ter mais medo delas! O transporte escolar das crianças está terceirizado SIM, isto facilita a minha vida SIM, eu estou mais feliz e livre SIM e eu me ABSOLVO! ;)”

LORETA BEREZUTCHI, quando criança, queria escrever estórias! Depois decidiu que queria ser o Indiana Jones e foi estudar História! Curiosa, se meteu a ser criativa e estudou publicidade! Mas não fazia idéia de que as histórias que mais gostaria de contar, ouvir e criar seriam as histórias da maternidade! Mãe do Pedro e da Catarina, compartilha por aqui toda a sua BAGAGEM! Há 6 anos no ar, já recebeu mais de 25 milhões de leitores, já esteve lá e acolá falando sobre o maternar e também faz parte da Editora Abril em parceria com o site Bebe.com.

O original do artigo encontra-se disponível AQUI, e o site ‘Bagagem de Mãe” possui muitos outros materiais de vários temas interessantes às mães que queiram acessa-lo.

Com informações do site Bagagem de Mãe