Após quase um ano de paralisação, transportadores escolares relatam desafios durante a pandemia e na volta às aulas

“Por mais planejado e cauteloso que você costuma ser, você não consegue fazer nada. Você tem mesmo que esperar as coisas acontecerem para depois correr atrás”, diz Maurício Ferreira de 51 anos.

A declaração acima se encaixa a muitas profissões afetadas pela pandemia, entre elas a de transporte escolar, uma das mais impactadas e que, após quase um ano de paralisação, ainda não voltou à normalidade.

Com a suspensão das aulas presenciais em março do ano passado, vans acostumadas a transportar dezenas de alunos todos os dias até a escola literalmente pararam, diminuindo ou cortando totalmente a renda de muitos profissionais do setor.

Em matéria do G1, muitos transportadores escolares relataram as dificuldades enfrentadas até aqui e o que esperam para 2021. A possível volta das aulas presenciais em muitas cidades aumenta a expectativa para um retorno da atividade desses profissionais, mesmo que gradual. Porém, ainda existem muitas dúvidas sobre como se dará esse retorno.

Maurício Ferreira, de 51 anos, trabalha há 16 anos com transporte escolar. Ele é presidente da Associação dos Transportadores Escolares de Ferraz de Vasconcelos e falou sobre a difícil situação que ele e muitos outros companheiros de profissão vivem desde o ano passado.

“Em Ferraz, nós paramos no dia 18 de março. Durante uns dois meses, a gente ainda conseguiu ter algum rendimento, porque era começo de pandemia, não se sabia por quanto tempo aquilo iria ficar. Mas depois disso foi prolongando, e eu acho que, hoje, é a única profissão que ainda não voltou a trabalhar, que parou de fato mesmo”, disse Maurício.

“É uma profissão complicada. As pessoas podem pensar que o transportador pode pegar a van e ir fazer outro serviço, transporte de carga. Mas, por lei, a gente não pode. O carro de transporte escolar serve exclusivamente para transporte escolar. Tem quem faça por causa da necessidade, mas, legalmente, não pode ser feito”.

Segundo Maurício, sem as aulas presenciais, a grande maioria dos pais parou de pagar as mensalidades do transporte escolar. Alguns poucos continuaram pagando, mas apenas uma parte do valor. Maurício transportava entre 60 e 70 crianças por dia e conta que, até o meio do ano passado, cerca de 10% dos pais seguiram pagando a metade da mensalidade. Ele encerrou o ano com apenas dois pais pagando 50% da mensalidade, em dezembro.

“Eu, graças a Deus, sempre fui um cara com medo do futuro. Tenho 51 anos e sempre trabalhei por conta. Sempre passei para muitos transportadores terem cuidado, porque, se acontecer alguma coisa, eles não têm férias, décimo terceiro, fundo de garantia. Têm o ganha pão do dia a dia. E eu sempre fui me controlando, sempre tinha uma reserva comigo. Essa reserva é o que está ajudando a me manter. Há dois meses, comecei a trabalhar por aplicativo, com carro de passeio, para equilibrar as contas. Eu tenho algumas vantagens porque não pago aluguel e minha van está quitada, mas você pega transportadores que trocaram de van no começo do ano passado, às vezes com prestação de R$ 3,5 mil por mês”.

Claudia Saturnino Camara tem 47 anos e trabalha com transporte escolar há 14. Ela é representante da comissão de transportadores escolares de Mogi das Cruzes e relatou a situação da classe como um todo. Segundo Claudia, muitos profissionais tiveram de buscar alternativas de renda, e houve casos de transportadores que acabaram ficando sem a van ou que desistiram da profissão.

“A princípio achávamos que a paralisação seria por um mês, no máximo dois. No fim, foram nove meses de paralisação das aulas em 2020. Muitos pais não acharam justo continuar pagando, mesmo com muitos transportadores dizendo que era o único ganha pão deles. Porque o transporte escolar normalmente é a única renda de toda a família. Às vezes trabalham marido e mulher, pai e filha. Mesmo o transportador conversando com o pai para ver um valor, um desconto para que ele pudesse se manter, senão teria que vender a van, sair do transporte escolar. E aconteceu muito isso. Houve alguns casos em Mogi e no estado de São Paulo todo”.

“Muitos profissionais descaracterizaram suas vans e foram fazer entrega de mercadoria, trabalhar para grandes empresas com vendas por meio da internet. Houve essas situações por desespero, por não saberem o que fazer para manter o sustento da própria família. Outros foram fazer bolos de pote, ou abriram lojas virtuais. Cada um tentou fazer alguma coisa. Muitos ainda tinham suas vans financiadas. Teve transportador que perdeu a van para bancos. Em Mogi também tivemos transportadores que perderam suas vans. Outros desistiram. Não tinha como sobreviver e tiveram que vender suas vans, entregar alvarás. Foi um problema muito sério”.

A possível retomada das aulas presenciais neste ano gera expectativa nos profissionais do transporte escolar, embora ainda existam muitas dúvidas sobre como será esse retorno. Afinal, é provável que as vans tenham de seguir protocolos para garantir a segurança do próprio profissional e dos alunos.

“Alguns pais já procuraram a gente para saber, mas não foi aberta nenhuma conversação ainda. A Prefeitura não nos chamou para passar, de fato, o planejamento de retorno às aulas. Não temos o protocolo de como eles vão tratar o transporte escolar. E para nós isso é muito ruim, porque trabalhamos com contrato. O transportador escolar sempre fecha contrato de acordo com aquilo que ele pode transportar. Nessa incerteza de não sabermos como vai se dar esse retorno, fica até difícil planejar alguma coisa”, falou Maurício.

“Se o transportador fechou contrato com um número de clientes, mas depois vem uma regulamentação dizendo que ele não pode mais transportar, ele vai ter que quebrar algum contrato. Quem é que paga a multa da quebra de contrato? Quem eu escolho para transportar? Além disso, meu gasto é fixo. Eu tenho uma monitora, e para ela não interessa se vou colocar 10 ou 20 pessoas no meu carro. Não vou gastar menos combustível se tiver menos gente. Os gastos são exatamente os mesmos. Aí eu vou ter que recalcular o preço daqueles que vou transportar. Então eu teria o problema de cancelar os contratos e de ter que reajustar os outros contratos”.

Em um ambiente que ainda é de incertezas, alguns pais já começaram a procurar os profissionais de transporte, embora seja uma procura tímida, segundo Claudia. Porém, ela e outros profissionais do setor procuram ser otimistas quanto à retomada de um trabalho ao qual se dedicaram durante muitos anos, mas que precisaram interromper totalmente em 2020.

“Nós já estamos, sim, tendo alguma procura. Isso em um modo geral. Quando você vai ver o individual, a procura ainda está sendo muito pouca. Mas, em um todo, já está começando a ter procura, até mesmo do pai que já quer saber se pode contar com o transporte. Houve algumas alterações, às vezes de pais que tiraram o filho de escola particular e foi para a pública”.

“Por enquanto também vamos nos adequando, aos protocolos, à prevenção. A gente também está se organizando para isso, para que possamos ter um protocolo de segurança, e para que o transporte escolar de Mogi seja seguro para nossas crianças”.

Com informações do G1