Vans escolares passam a fazer transporte de corpos de vítimas da covid-19 em SP

Sem aulas presenciais na capital paulista, 150 motoristas de vans escolares se candidataram para transportar corpos de vítimas da covid-19 dos hospitais para os cemitérios. Os veículos passarão por adaptações e começam a circular hoje.

Segundo o presidente do Sindicato dos Transportes Escolares, Wesley Florêncio, a empresa Era Técnica Engenharia Construções e Serviços, contratada pela prefeitura de São Paulo, pediu para que o representante da categoria informasse os motoristas da possibilidade de usar o veículo para essa finalidade.

“Alguns motoristas acharam uma péssima ideia, porque depois vão transportar alunos dentro das vans. Mas outros acabaram se candidatando, já que estão sem renda há um ano”, explicou Florêncio.

A prefeitura, por meio de nota, informou que a contratação da empresa em questão é um dos esforços para “reduzir o sofrimento dos familiares” das vítimas de covid-19. O contrato do governo municipal permite que a Era Técnica Engenharia faça a subcontratação de 50 veículos particulares do tipo van, minivan ou furgão, além de quatro veículos de passeio.

A gestão de Bruno Covas (PSDB) se limitou a dizer que “não há contratação de veículos escolares que prestam serviço municipal”.

O UOL questionou se a prefeitura ainda sim iria autorizar o uso das vans que prestam serviço para alunos da rede privada e qual seria o procedimento de segurança, mas não obteve resposta.

Florêncio explicou que aos motoristas serão oferecidos materiais de segurança como máscaras e luvas.

Os 50 motoristas estão passando por treinamentos. A procura foi três vezes maior que o número de vagas, e 150 tentaram a oportunidade. Segundo os motoristas, o pagamento é de R$28 por hora, e a previsão de trabalho é de 10 a 12 horas por dia.

Ao final da contratação, a Prefeitura irá higienizar os veículos usados para o transporte de corpos.

Com o aumento dos enterros, a Prefeitura de São Paulo estendeu os horários dos sepultamentos em quatro cemitérios: Vila Formosa e Vila Alpina, ambos na Zona Leste; o São Luiz, na Zona Sul; e o Vila Nova Cachoeirinha, na Zona Norte. Os enterros que antes eram realizados das 7h às 18h agora ocorrem das 7h às 22h.

A capital teve um aumento de quase 30% nos enterros. Os sepultamentos noturnos fazem parte do Plano de Contingência do Serviço Funerário.

O que dizem os transportadores escolares

A suspensão das aulas presenciais afetou diretamente o trabalho dos profissionais de transporte escolar.

“Eu arrumei um serviço pra ganhar R$ 1.500, meu carro ano passado faturava R$ 10 mil, R$ 11 mil, por mês. Mas eu estou ficando na casa dos meus pais porque eu não tenho condições nem de pagar as despesas pra minha casa”, conta Sandra Ribeiro, motorista de van escolar há 20 anos.

Ela participou da reunião de inscrição com a empresa Era Técnica para o transporte de caixões, representando dois amigos, mas optou por não prestar o serviço. Na reunião, uma série de exigências foi feita aos motoristas, entre elas a retirada dos bancos e da faixa “escolar” do veículo.

Sobre a segurança de quem vai trabalhar com o transporte de cadáveres, Sandra conta que houve um acordo com a empresa. “O que foi acordado na sexta-feira pra gente é que o equipamento de proteção, já foi solicitado o uniforme, a bonita, as luvas, pro transportador e pro ajudante”, explica Sandra.

Anderson Malafaia, presidente da UGTESP (União Geral do Transporte Escolar de São Paulo), acredita que a categoria está sendo explorada pela empresa. Segundo a associação, entre as condições oferecidas pela empresa está o pagamento de até R$ 28 por hora trabalhada, podendo chegar até o período máximo de 10 horas.

“Se trabalhar as 10 horas por dia, você vai ter uma receita líquida de 150 reais, 150 reais com a despesa que você tem com a sua van para trabalhar de forma clandestina, transportando corpos, você teria que trabalhar 10 dias só pra pagar essa despesa. Fico de coração partido vendo a nossa categoria ser explorada dessa forma”, avalia Malafaia.

Com informações do Uol e G1