Estudo da Fiocruz mostra que crianças têm baixa transmissão de Covid-19 e dá suporte à reabertura das escolas

Ainda não se sabe ao certo o comportamento das crianças em relação à covid-19. Dados mostram que elas têm sido menos afetadas pela doença e, quando infectadas, tendem a apresentar sintomas leves ou mesmo serem assintomáticas. Agora, um novo estudo indica que crianças e adolescentes têm baixa taxa de transmissão de covid-19 – sendo mais fácil que esse grupo adquira a doença de adultos do que a transmita aos mesmos. Os resultados da pesquisa revelam informações importantes para as discussões sobre a definição de estratégias de vacinação e reabertura de escolas.

Realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade da Califórnia (UCLA) e a London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM), o estudo foi desenvolvido na comunidade de Manguinhos, no Rio de Janeiro, entre maio e setembro de 2020. Foram analisadas 667 pessoas, sendo 323 crianças (de 0 a 13 anos), 54 adolescentes (14 a 19 anos) e 290 adultos.

Um total de 32,6% (79 de 242) das crianças com menos de 14 anos e 31% (72 de 231) dos contatos familiares tiveram testes positivos, indicando que já tinham sido expostos ao coronavírus até setembro de 2020. A pesquisa observou também uma proporção maior (35%) de crianças com menos de um ano infectadas, em comparação com grupos pediátricos de outras idades, o que pode estar relacionado ao contato direto com as mães. Na China, um estudo revelou uma taxa de infecção de 17% em bebês, quase a metade do observado em Manguinhos.

De acordo com os pesquisadores, as crianças que testaram positivo para a covid-19 tiveram contato com adultos com sintomas da doença. “As crianças incluídas no estudo não parecem ser a fonte da infecção de Sars-CoV-2 e mais frequentemente adquiriram o vírus de adultos”, diz o prévia do artigo publicada no portal da Fiocruz.

Reabertura das escolas
O estudo destaca que a investigação foi feita quando as escolas ainda estavam fechadas e a variante P.1 (hoje é a comum e transmissível) não estava em circulação, sendo portanto necessário mais evidências sobre a atuação do coronavírus nas crianças. A recomendação dos pesquisadores é que a reabertura de escola seja feita quando realizada a vacinação dos profissionais de educação.

“Nossas descobertas sugerem que em cenários como o estudado, escolas e creches poderiam potencialmente reabrir se medidas de segurança contra a Covid-19 fossem tomadas e os profissionais adequadamente imunizados”, diz o artigo A dinâmica da infecção de Sars-CoV-2 em crianças e contatos domiciliares em uma comunidade pobre do Rio de Janeiro, a ser publicado na Pediatrics, Official Journal of the American Academy of Pediatrics.

Os estudiosos complementam que faz-se necessária uma melhor compreensão do papel das crianças na dinâmica de transmissão, para desenvolver diretrizes para a reabertura das escolas em segurança e de outros espaços públicos, além do desenvolvimento de estratégias de imunização. Segundo o relatório, isso é particularmente importante em comunidades pobres, onde há um grande número de pessoas vivendo em uma mesma casa.

Repercussão nas escolas
Luciana Fevorini, diretora escolar do Colégio Equipe, de São Paulo diz que a pesquisa é importante mas que é preciso cautela. “Eu diria que essa é mais uma pesquisa sobre o assunto, mas não é definitiva. Nesse momento em que estamos vivendo situações pessoais e familiares muito distintas eu vejo, como diretora de escola, que não há uma unanimidade entre professores e pais a respeito da segurança quanto à volta as aulas. E isso ocorre não porque os pais acham a escola insegura, mas é que para chegar à escola tem todo um sistema de transporte, tem famílias que não abriram mão do convívio familiar mais intenso, outras que viajam e acabam se expondo por conta desses deslocamentos, ainda outras que estão totalmente isoladas. É um cenário muito diverso e não há consenso, não há unanimidade”, diz a gestora do colégio, que atualmente mantém apenas o ensino remoto, mas planeja receber presencialmente as crianças menores, entre 3 e 7 anos e promover atividades presenciais também para alunos do 3o a 9o anos do ensino fundamental.

Já Bruna Elias, diretora pedagógica do Colégio Brasil Canadá, também na capital paulista, diz que pesquisas como essa podem trazer mais segurança aos pais que ainda hesitam em enviar seus filhos às escolas, mas destaca a necessidade de seguir os protocolos sanitários. “Esse pode ser um dado importante para a reabertura das escolas, no entanto, como tudo é bastante novo, acreditamos que os protocolos devem ser rigorosamente seguidos e mais dados devem ser coletados a fim de trazer maior conforto e segurança às escolas e famílias. Sabemos que a escola é um direito que se faz necessário a toda criança, mas também entendemos a cautela das famílias e o próprio receio das instituições frente ao quadro que todos enfrentam”, pontua a diretora. De acordo com as normas do governo paulista, o colégio atende até 35% dos alunos de forma presencial, oferecendo também as aulas por meio de plataformas virtuais.

Para Vinicius Canedo, diretor executivo do colégio Mopi, no Rio de Janeiro, o estudo traz mais segurança às famílias que hoje ainda não têm confiança para mandar o filho ao presencial. “Além do prejuízo futuro, nas questões cognitivas e de defasagem de aprendizagem, há outros problemas sérios, como a questão do acolhimento, do abraço, do círculo de proteção que a escola traz para o aluno. São prejuízos irrecuperáveis, que não poderão ser recompensados. Não tem como voltar atrás e resolver essas questões”, diz o diretor. Ele acrescenta que essa notícia só dá mais confiança na validação das estratégias seguidas, de protocolos seguros no ambiente de escola. A colégio no momento promove o ensino híbrido, com opção de aulas presenciais e online para todos os segmentos.

As crianças e as vacinas
O ponto de partida para a pesquisa foi o acompanhamento de crianças com menos de 14 anos que buscaram algum tipo de atendimento no Centro de Saúde Escola Germano Sinval Faria, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), em Manguinhos. Essas crianças passaram, então, a serem visitadas em casa, sendo submetidas a testes de PCR e de sorologia (IgG). Adultos e adolescentes nessas casas também foram testados.

“Mesmo não sendo as principais fontes de infeção nos domicílios no estudo, é necessário incluir crianças nos ensaios clínicos de vacinação. Se os adultos forem imunizados e as crianças não, elas podem continuar a perpetuar a epidemia. Se no mínimo 85% dos indivíduos suscetíveis precisam ser imunizados para conter a pandemia de Covid-19 em países de alta incidência, esse nível de proteção só pode ser alcançado com a inclusão de crianças em programas de imunização, principalmente no Brasil, onde 25% da população têm menos de 18 anos”. Os autores chamam atenção de que os resultados do estudo são referentes ao local e período estudado (maio a setembro de 2020), diferente do cenário atual com nova variante do vírus, mais transmissível, circulante.

Com informações do Metro